love letter (aka message in a plastic bag)

30 Novembro 2006

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Cartas de amor quem as não tem

30 Novembro 2006

Eu. É triste, mas é verdade. Nunca m’as escreveram. O lado calimérico aponta-me para o imerecimento, o lado arrogante leva-me para a falta de cabimento. A verdade estará no meio: dificuldade em atrair um esforçado mas sentido paleio.

Ora se tivesse de elaborar uma teoria, diria: quem nunca recebeu uma carta de amor é porque deve esconder um grande estupor. Mas como não tenho, apenas retenho: alguém que não escreve mas que ama, corre o risco de se perder nos folhos da cama, de desperdiçar o prémio e fica-se pela fama. Primeiro: isto é realmente foleiro, e soa pior que mal, por isso, afinal, ganho tino e refino: amor de letra é foda da treta, é baralhar-se com o testemunho antes de chegar à meta; engrossei em excesso, retomo o processo: o amor escrito é um sentimento restrito, é um lado selvagem que se tempera, mas que nunca chega a domar a fera. Isto atravessa-me um pouco o coração mas leva-me por associação para o conceito de ferida, que é marca do amor quando se mistura com a vida; assim, para sarar, pega-se em duas ou três palavras banais e toca a andar: se for brasileiro sai aquela musiquinha com cheiro, mas se for português nem saímos dos porquês; ‘porque não me amas’, ‘porque nunca me chamas’, ‘porque sou só eu que te beijo’, ‘se não vou ter contigo nunca te vejo’, ‘eu só penso em ti e tu do-re-mi do-re-mi do-re-mi’. O amor lusitano é pois meio fornalha, meio cigano: ora arde como palha, ora cortejamos ao engano; mas só não se engana quem não experimenta, é como o pesca sem cana e o chá de menta, e um amor bem adornado dum belo palavreado é meio caminho andado para moer moer moer , mas nunca…esmorecer, pois, está bom de ver, nunca ninguém me escreve nada assim, e então, coitado de mim, arrasto-me penosamente, vertendo suspiros sobre caixas de correio, francamente, tanta prata que eu areio, tanto coço atrás, à frente e ao meio, à espera duma frase que me comova, dum advérbio que me leve os modos, e não me digam que ainda vou para a cova com lágrimas derramadas a rodos, e sem uma frase dorida, mesmo que fosse com uma ou outra mentira escondida; ora cartas de amor não tenho, e só não choro baba e ranho, porque o lenço que era para me assoar, ficou a esvoaçar, num adeus sofrido, sorte madrasta, asa que arrasta, mas note-se: sou um querido.


ambrósio, tomei a liberdade de recusar a sua sugestão e preferir algo diferente

29 Novembro 2006

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Jean Dubuffet (1981). Site avec deux personnages (Psycho-Sites). Paris: Centre Georges Pompidou. (acrílico sobre papel reforçado sobre tela, 50×68 cm) 


Pedofideismo

29 Novembro 2006

Parece-me claro que um crente (ora mais temente, ora mais temerário) a Deus, por mais ironia pascaliana ou relativismo kirkegaardiano com que banhe a sua carninha, só consegue um churrasco em condições com umas oraçõezinhas ao deitar. Ninguém aguenta ir para a cama com a prova da causalidade enrolada, nem com angústias hermenêuticas, e muito menos com um Cristo histórico entre o jardim das Oliveiras e os desertos da Galileia. Toda a alma que se preze quer sossego, uma fé tenrinha, que deslize que nem um lombinho assado, e quanto muito um picante ou outro para aquilo não ficar parecido com palometa frita e ainda dar para enjoar.

Os evangelistas dizem-nos que Jesus indicava a simplicidade das crianças, e a descontracção dos lírios do campo, como ‘modelo de vida interior’, dando assim uma dica (expressão popularucha para ‘boa nova’) sobre a melhor maneira de adequar a nossa natureza de homo faber-sapiens, com tendência para complicar, à verdade mais fundamental da nossa condição, ou seja: Deus ama-nos e está dentro do nosso coração, e a adesão a esta realidade só se alcança com doses maciças de ingenuidade metafísica e alguns pózinhos de quessefodismo instrumental, até porque os fins justificam os meios, como bem sabemos pelos programas da BBC-vida selvagem sobre o sexo entre lagartos, que nem são filhos de Deus nem nos manuscritos do mar morto.

Ora bem podemos andar à toa com os Plínios, os Flávio Josefos, os marados dos gnósticos, as artroses dos zelotas, as filhas da puta das petroquímicas, os cabrões dos chinocas e a falta de pachorra em geral durante o dia que, à noitinha, com a biografia do Estaline ainda a marinar nos miolos, um gajo quer mesmo é que Deus seja aquela coisa fofinha que nos traz no colinho e que só nos diz para não vermos filmes pornográficos, até porque não se deve andar a alimentar corporações de multinacionais da limpeza a seco.

Cansa-me a dúvida, exaspera-me a indiferença, confrange-me a insegurança, desconfio da ironia, aborrece-me a impossibilidade, e por isso refugio-me naqueles sentimentos que se entranharam no corpinho desde criança, que são os mesmos ainda que me fazem ter medo de pássaros, gostar de queijo, dar beijinhos à esquimó, e não saber viver com os pés frios e a bexiga cheia. Deus entrou na minha vida ao mesmo tempo que o pulmão.

Sou claramente um mamífero a acreditar.


Minha estimada senhora,

29 Novembro 2006

Não lhe bastando ter colocado aqui um dragão de língua de fora, numa afronta directa ao momento de alguma ansiedade competitiva que envolve a minha leonina alma, entusiasmou-se, e youtubou aqui o estabelecimento com uma musiquinha pospunkada dos Soft Cell ameaçando a virilidade construída filigranadamente (eu gosto desta expressão, que fazer) ao longo destas semanas.

Espera-se a remissão destas provocadoras atitudes com fotografias de virgens parmigianas, colagens de pintores expressionistas de cariz não suicidário, seguidas de paisagens bucólicas encimadas por versos de sebastião da gama, sendo, no entanto, facultativos, tanto os pôr do sol no portinho da arrábida como as naturezas mortas cubistas.

Em querendo fazer uma série, como é de bom tom, tomo a liberdade, senhora, à falta do ferrero rocher, de lhe sugerir algo que possa reflectir uma alma em constante vertigem de originalidade, a título de exemplo, arranjos de flores ou frisos em art deco.

Respeitosamente, aliás nem podia ser doutra forma,


on behalf of thy (aka the gregorian cabaret)

28 Novembro 2006


Liedson

28 Novembro 2006

Custa-me que o principal assunto que me preocupa não esteja também a preocupar a generalidade das pessoas. Não sei se será falta de atenção, se será deslumbramento com as iluminações de Natal, ou andam todos a decorar poemas do cesariny- cesarine como diria o nosso Eanes – ou a discutir alternativas para o TGV (Trauma das Grávidas Voluntárias; atenção, um flagelo! uma mulher quer ter logo o filho às 10 semanas porque já não aguenta com as costas, já tem o enxovalinho pronto, tem saudades do período e assim, e ninguém lhe deixa, acho que nem em Badajoz), não sei, mas não vejo ninguém realmente preocupado com a falta de golos do nosso Liedson, acho que se chama mesmo insensibilidade; chega a dar-me, também tenho de reconhecer, se bem que é mais com after-shaves e azeitonas de elvas.

Para além de o sentir triste por se ver acompanhado por aquela dupla de artolas que mais parece uma colecção de armações da multiópticas para maricas ‘Alecsandro & Bueno’ – que quase me fazem sentir saudades do Spehar ou do Paulinho Cascavel – o rapaz não está a marcar golos, o rapaz está a falhar golos que já passaram bem as 10 semanas, e ainda para mais num ano que parece de benzedura para toscos – atentem na performance irreal dum tal de Postiga que parece saído dum conto de natal, e até o Manel Pinho acho que se vai aguentar até à penúltima trinchadela do peru (na última a cozinheira vai hesitar muito onde acertar).

Reparem que ele não é um Nuno Gomes, que tem o seu estado natural a ajeitar o cabelinho à volta da orelha e a rezar para que os centros do Nelson lhe acertem na esquina da nuca, ele joga mesmo à bola, ele saiu de repositor de supermercados directamente para marcar golos, ele deixou uma carreira para trás, é praticamente como o Armando Vara na banca de retalho.

É evidente que o Papa está na Turquia (já começaram a sair caricaturas, ou não?), é evidente que os espiões russos se andam a alambazar com raticida, é evidente que o McEwan se andou a inspirar na Lucilla (tem nome típico ovelha clonada, ou chimpanzé astronauta, por sinal) – para quando um Abel Mateus para o plágio? – é evidente que Prado Coelho está a ficar velho, mas grave grave é o Liedson andar a ficar parecido com a ministra da Cultura e o ataque do SCP mais parecer uma mistura entre o museu berardo e a vereação da CML. Também já estou a ficar vereado! O Liedson pode perfeitamente ter tirado os golos da agenda e ter lá posto valores, princípios, sei lá, o tipo se calhar agora até é democrata cristão, mas foda-se não me está a marcar golos, caralho, e vêm aí os cabrões dos lampiões e não vejo ninguém realmente preocupado, só falam de acessibilidades e do problema cultural da Europa. Daqui a pouco o Lobo Antunes publica uma correspondência secreta com a Inês Pedrosa e o Rodrigues dos Santos e depois é que eu quero ver como é, se o gajo não marca golos até lá. Já não se sabe distinguir o que é importante; não tarda fundo uma minoria ética.


ong

28 Novembro 2006

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Todos temos um bocadinho de Agustina B. Luis dentro de nós

27 Novembro 2006

No público leio que Maria José Nogueira Pinto depois de dizer que Sócrates não tem uma ‘agenda de valores’ (adoro estas expressões, mas ‘homens descascados de ideologias’ também não está nada mal) remata dizendo que o governo nunca lhe ‘pediu para vender a alma’. Ou distraídos, ou inconscientes mesmo; certamente uma consequência dessa negligencia socialista em se fundamentar num conjunto de valores devidamente certificados por anos e anos de bem-fazer ao próximo, filhos do jacobinismo, enteados do materialismo dialéctico e finalmente adoptados como bichos de estimação do capitalismo selvagem. Ora o governo, que tem tanto dinheiro mal gasto, (atrasava-se aí uns quinze dias o plano tecnológico), bem podia deixar-se de arrogâncias e forretices e arranjar algum para comprar a alma de Mizé Nogueira Pinto; não só ganhava uma aforista descomprometida (‘quem exerce um poder moderador tem de o exercer moderadamente’ – género: o verde seco fica sempre bem com o grená), como uma guerreira desinibida, (‘quando é preciso abrir um conflito abro até porque estou mais livre para isso que ninguém’ – é também o lado saca rolhas que nunca viu uma carica) como uma maruja convicta, melvileana até, (‘nunca saí de barco nenhum na vida’, mas que por acaso até entra um pouco em contradição com ‘gosto de laços e detesto nós’, registe-se, mas uma grande alma forja-se nestas pequenas contradições, já se sabe), sem falar do seu lado narciso-mirandico mas em chanel style (‘o grande capital desta cidade são as pessoas e não os edifícios’ – apesar do primeiro ser necessário aos segundos para obter os terceiros, salientaria) e do lado visonário (‘o meu partido tem muita gente’ – já lá vai a geração táxi, claro).

Sócrates, tem ali uma amiga para a vida; é só comprar uma agenda nova com os nomes dos santos.


‘O vale dos Arménios’ (*)

27 Novembro 2006

Num dos catálogos editados por alturas da exposição de Arshile Gorky na Gulbenkian nos anos 80, no texto de apresentação (escrito pelo seu sobrinho) retive-me nesta frase: ‘É um dos poucos artistas cuja vida nada fica a dever à sua arte…’. Hoje no ‘público’ uma das páginas dedicadas a Cesariny tem como título: ‘viveu à altura da obra e a obra esteve à altura da vida’.

Tendo eu para mim que um poeta se faz com a morte, como mais nenhuma actividade – tirando a de coveiro e florista, claro – e que a vida é cada vez mais coisa para ‘decoradores de alfabetos’, viciados em low cost e pauliteiros sem miranda, chego rápido à conclusão: passo bem sem ‘vidas’. A. Gorki quando se enforcou terá deixado escrito: ‘Adeus Meus Queridos’, revelando que da vida, por mais intensa que tivesse sido, apenas deixava os seus queridos; a vida mede-se pelos nossos queridos, não pelos nossos actos. Não tarda cito o Sto Agostinho ou o Erasmo, ou ainda como uma apple strudell, ou desenho uma roda dentada a par dum casulo, ou assim.

(*) Título dum desenho de Arshile Gorky. Daqueles que o surrealismo não pára de imitar.