Nina Nastasia (tem umas musiquinhas novas deste ano mas eu ainda não ouvi) começa o seu disco de 2004, «Dogs», com a faixa ‘Dear Rose’ onde canta isto: «I hope you’ll think of me as someone who would do anything for you». Parece o limite. Mas não é. Lembra-me o passo mais à frente dado num dos poemas russos mais famosos e populares de Pushkine, ‘Eu amo-te’, um clássico do amor não correspondido, e que termina assim (qualquer coisa como assim, já agora): «Eu amei-te tão sinceramente, tão ternamente,/ que Deus te permita que sejas amada assim por outro»; e tudo isto fixa-me na frase – bem mais positiva – carregada duma bruta simplicidade das personagens de Jonh Banville em ‘O mar’: «Perdoámos um ao outro tudo aquilo que não éramos». Só que seria impossível passar ao lado do que Oscar Wilde pôs na boca de Salomé, e que Mlada Khudoley cantou este ano ao som de Richard Strauss, o trágico e terrível: «Ich fordre den Kopf des Jochanaan». Metáforas; precisam-se metáforas; ‘eu não consigo curar ninguém da felicidade’, como diria (ironicamente) Akhmatova.
2006 – um ano conveniente
28 Dezembro 2006Se virmos com atenção em 2006 não aconteceu nada. Ia dizer praticamente nada, mas praticamente é uma palavra aborrecidamente atenuante. Nada, mesmo, é mais correcto. Entrámos pois com Manuel Pinho ( em maciço) e saímos com Manuel Pinho ( mas em folheado) , o que dá uma capicua política em que no meio podemos ter uma mistura tuga de Chavez com Putin a que chamamos pomposamente Sócrates, o tal que faz o que tem de ser feito, uma espécie de mulher a dias que chega a parecer patroa quando vai compenetrada às compras cheia de talões de desconto.
Mas esta sensação de que não se passou nada é corriqueira, acontece-nos com a música – por exemplo agora oiço os Libertines e tive uma sensação parecida, se bem que possa ser o enfartamento dum bom bacalhau à brás – ou mesmo com um Hoyo de Monterrey – mas pode ser desleixo no desumidificador – , ou até com uma fotografia de Fidel a fazer olhinhos a uma pagela da Sra da Aparecida. Está para as sensações como a feijoada para a flatulência: previsível para um intestino responsável.
Não se ter passado nada é aquela benção que nunca saberemos suficientemente agradecer, é uma espécie de sétimo dia do Génesis em estado permanente, com Deus a descansar e cada um de nós a poder pensar que é o que lhe está a fazer as festinhas no cabelo ( é absolutamente impróprio pensar que Deus é careca); o nirvana possível para quem do Tibete só conhece o nariz do João Garcia.
É claro que o caso dos cartoons do Maomé veio cirurgicamente espaçado uns meses do livro da Carolina para dar a impressão que queimar bruxas na idade média foi uma coisa de malandros, mas no fundo quem não gostaria de ter tido uma animação destas por perto, quem não pagaria por ver uma ministra agarradinha a um cepo a servir de instalação na inauguração do museu berardo, sim, quem não gostaria de ver o Poder a imolar-se em nome da Arte, numa fusão de Bill Viola com Richard Long, quem? Não se passou nada.
É evidente que tivemos o Mário Crespo, algumas aparições do Telmo Correia sem milagre do Sol, o Abel Mateus, – também conhecido como a sombra do lucky lucky – o Al Gore tornou-se o Richard Attenborourg do efeito de estufa, para tentar esquecer como tinha ficado enbushado uns anos antes, e o Nuno Rogeiro foi ao Irão sem saber para que lado era Meca, mas isto não é bem o mesmo que ter-se passado alguma coisa, aliás, se não até o Louçã tinha avisado a malta.
Resta estabelecer-se para o futuro qual o critério definitivo para saber quando se passou efectivamente (que é diferente de ‘realmente’- algumas noções de nominalismo ajudariam a perceber) algo; e a pedra de toque está no binómio Cicciolina-Padre Borga- EPC — que, por acaso, nos dias de boa visibilidade até dá um trinómio – ou seja: Sexo, Religião e Folclore. Para que algo aconteça têm de se conciliar estes três universais da nossa condição. Com a Ana Gomes, Condoleezza, e Segolene assim tão afastadas acho difícil. Limitamo-nos a manter as conveniências, porque as aparências já as desleixámos há muito.
Mas quando estiver a passar-se alguma coisa eu digo.
Mulheres – o que elas cantaram, reserva 2006
26 Dezembro 2006A ordenação está baseada no mero acaso. O que já não é pouco.
Cat Power em ‘The greatest’, ao minuto 2.12 de ‘The Moon’: «(…) cuz the moon is not only beautiful / it is so far away / the moon is not only ice cold / it is here to stay (…)»
Regina Spector em ‘Begin to Hope’ , ao minuto 0.27 de ‘Samson’: «(…)Your hair was long when we first met / Samson went back to bed / Not much hair left on his head / He ate a slice of wonder bread and went right back to bed / And history books forgot about us / and the bible didn’t mention us / not even once / You are my sweetest downfall /I loved you first (…)»
Marisa Monte em ‘Universo ao meu redor’, ao minuto 0.45 de ‘A alma e a matéria’: «(…) Na pele braile pra ler na superfície de mim / Milímetros de prazer, quilômetros de paixão / Vem pra esse mundo, Deus quer nascer / Há algo invisível e encantado entre eu e você / E a alma aproveita pra ser a matéria e viver (…)»
Lisa Germano em ‘In the maybe world’, ao minuto 1.07 de ‘The day’: «(…) what did you do to be like this / and what do you do / when you feel it and you don’t go / pretend that you don’t know »
Joanna Newson em ‘Y’s’, ao minuto 6.35 de ‘Only Skin’: «(…) I have got some business out at the edge of town / Candy weighing both of my pockets down / ‘Til I can hardly stay afloat, from the weight of them / (and knowing how the common-folk condemn / What it is I do, to you, to keep you warm / Being a woman, being a woman) (…)»
Fiona Apple em ‘Extraordinay Machine’, ao minuto 2.33 de ‘Better Version of me’: « (…)Here’s coming a better version of me / Here it comes, a better version of me / Here it comes, / A better version / Of me»
Do cristianismo II
22 Dezembro 2006Um dos fenómenos ‘complexos’ da espiritualidade cristã é a conciliação entre uma relação individual e única entre Deus e cada um dos homens, e a relação entre Deus e os homens como parte duma ‘Igreja’ ou duma ‘espécie’.
Volto ao Papa , quando era ainda apenas Ratzinger: (*) « A salvação do indivíduo enquanto indivíduo poderia ser realizada directa e imediatamente por Deus, o que, aliás, costuma acontecer em não poucos casos. Deus não precisa de intermediação para entrar na alma do indivíduo. (…) Para salvar o indivíduo isolado, não haveria necessidade de uma Igreja ou de uma história da salvação, nem da encarnação e da paixão de Deus neste mundo. Mas (…) a fé cristã não parte de indivíduos atomizados, mas da convicção de que não existe o ser humano isolado, de que ele só é ele mesmo como ser integrado no todo, na humanidade, no cosmos. (…) Ou para usar a expressão de Möhler: «o ser humano, que é relação contínua, não chega a si mesmo, nem tão pouco sem si mesmo».
Uma das riquezas da revelação cristã é precisamente ela ser uma manifestação dirigida a cada um e a todos; raramente se poderia equacionar uma mensagem simultaneamente tão individual e tão geral, dificilmente se conseguiria tão bem unir sem deixar de manter únicos cada um de nós, o que faz sentido para um, faz para todos, mantendo-se todos diferentes e livres.
O cristianismo apresenta-nos Deus como o fim e o princípio, mas sem grandes preocupações ditas filosóficas, apresenta-nos o homem como sendo à imagem e semelhança de Deus, mas sem preocupações ditas antropológicas, e apresenta a sociedade como inevitável e desejável, mas sem preocupações ditas sociológicas.
O cristianismo é uma religião de proximidade e de congregação, ao mesmo tempo que é um fortíssimo apelo ao individualismo, à unidade do ser humano face a Deus. Que nos olha um a um. Muitas vezes nem se percebe como.
(*) texto mais uma vez retirado do livro ‘ introdução ao cristianismo’, ed principa, 2005, que resultou das audiências do então cardeal Ratzinger, em 1967, na universidade de Tubinguen.
E agora umas farturinhas Macias, Estaladiças e Coradinhas
22 Dezembro 2006Leio numa – boa – entrevista, que já tem uns dias, do Miguel Esteves Cardoso: ‘a arte está em tu abusares enquanto podes’.
Mas isto é tão errado. A arte está em: nunca abusar, mas pensando que se está a passar para lá de todos os limites; o homem nunca saberá aquilo que pode; o homem feliz é o que vive para lá do uso e do abuso, é o que vive iluso, o que funde a ilusão com o uso. Pode parecer um platonismo de vão de escada, mas é o tirinho da sorte. Coitados dos que viveram para esticar os limites, e se esqueceram que no centro é que se pode gozar verdadeiramente o movimento do carrocel.
Então e ninguém manda os gatos fedorentos para o caralho
20 Dezembro 2006Deu-me para escrever um post. Estava indeciso entre mais um da série ‘do cristianismo’, ou em mandar os gatos fedorentos para o caralho. Decidi-me, como se pode antever pelo titulo, pelo último tema. No fundo é apenas trocar a hermenêutica pela escatologia. A esta escolha não será alheio um sentimento que vai na cabeça de qualquer sportinguista que se preze: foram aqueles cabrões que, ao se porem a fazer chalaças apaneleiradas com o nosso Paulinho Bento, foderam a campanha vitoriosa que a lagartada vinha fazendo, secando toda a concorrência, o Custódio, inclusive, até já tinha acertado dois passes. Imagino até a cara dos jogadores quando o nosso Paulo lhes dizia para estarem tranquilos, que haveriam de dar a volta ao resultado, e que o Nuno gomes já andava descontrolado com a franja e que o Assis não snifava desde Fevereiro; certamente só lhes apareceria a correr no rodapé no bolbo raquidiano ( os jogadores do sporting são os únicos que possuem esta parte vegetal do cérebro) a imagem do esticadinho do sr Araújo, a fazer de Ribeirinho com antas.
Basicamente aquele grupo de anunciantes da PT é composto por dois gajos que ninguém sabe o nome, e que fazem de duponts e duponts – um anónimo comparado com eles parece a lili caneças – mais um que é feio e gordo – se for susceptivel pode assumir-se apenas anafado – e lagarto, o que é meio caminho andado para se julgar com piada – há uns anos iria para barbeiro nas avenidas novas- e o já referido sr. Araújo, que acaba por ser o principal responsável pelo descalabro competitivo dos lagartos, e que é uma espécie de jogador do paços de ferreira mas com capachinho. Ele, se fosse homem, ia mas era fazer imitações do Ferraz da Costa, ou do Lobo Xavier, mas não, deu-lhe para minar o balneário do nosso sporting, não encontrou piadas novas para fazer com o ar de sacristão sem hóstias do Fernando Santos, e foi-se meter com um santo rapaz que nunca foi à quadratura do circulo em nada. Ainda te haverá de correr muita água oxigenada pelas madeixas é o meu desejo, e se os lampiões não levarem 3 secos na luz, o melhor é começares a treinar imitações ao embaixador Rito, senão a Mª Morgado faz-te a folha por causa da promiscuidade entre o futebol e a piadolítica. Que deselegância, que falta de chá, e nem dão parecenças ao joaquim monchique, nem nada; de castigo acabarão a fazer imitações de guarda costas em gay parades, ou de bandeirolas no estádio da Luz.
Flexisegurança
18 Dezembro 2006Como é sabido, Mª José Morgado sempre fez a apologia de dois métodos ‘radicais’ na investigação criminal: a investigação proactiva, ou seja, criando condições (naturais/artificiais) para o flagrante delito (ex: GNR), e a investigação exemplar, ou seja, concentrar especiais esforços em determinados investigações/arguidos que permitam acusações com sucesso e notoriedade (ex Vale e Azevedo) , e que sirvam de exemplo a outros prevaricadores. Abstenho-me de comentar, pois apenas quero deixar como sugestão aos agentes da judiciária: comecem a treinar com afinco a table dance, a dança do varão, a andar em saltos altos e a apitar foras de jogo com bandeirinha. Pode ser que calhe, uns subsídios para infiltrados.
Simplex
18 Dezembro 2006Julgo que se deveria investir mais nesta tendência de fusão de processos de investigação judiciais. O próximo passo poderá ser a junção entre o processo ‘Apito Dourado’ e o processo ‘Casa Pia’. O processo resultante chamar-se-ia : processo ‘Pito Dourado’.
Publicado por assessa
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