30 Janeiro 2007
Para tratar a questão em referendo duma forma relativamente fria, o mais possível isentada do seu enquadramento moral ( e religioso) , procurando eliminar ao máximo as questões e retóricas que são acidentais, os paleios de consciência, relativizar ao máximo os extremos (ilimitado valor da vida e ilimitado valor da liberdade da mulher) , e dando de barato – porque parece óbvio e consensual – que em qualquer dos casos o legislador acabará por ‘eliminar’ as penas dos casos em que o aborto continuará a ser crime, (e deixando-me de piadolas que já maçaram a senhora aqui do estabelecimento) , coloco o seguinte em cada prato da balança, e sem grande receio de termos:
Deveremos ter uma lei dissuasória dum acto grave, porque termina com uma vida humana em progresso por razões que podem ser desproporcionadas, mesmo sabendo que assim se continuarão a praticar abortos ‘não protegidos’ pela lei em condições muito precárias e arriscadas
Ou
Deveremos proteger a autora desse acto, mesmo que grave, permitindo que o faça em condições médicas próprias e decentes
Voto no sentido da primeira, ou seja ‘Não’ no referendo.
( e agora sigam as piadas)
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30 Janeiro 2007
Pensos – 3 €
Injecções – 1 €
Secagem de furúnculos – 2 €
Desencravagem de unhas – 2,5 € (por unha)
Interrupções voluntárias
- de gravidez: 5 €
- de digestão: 1 €
- de neuras: 2 €
- do pingo no nariz: 0,5 €
Lavagem
- ao estômago : 3 €
- ao cérebro: 5 € (com credencial do Minº das Finanças)
- de roupa suja: 3,5 €
Erupções involuntárias
- coçar: 1 €
- drenar o puzinho: 2€
- esfoliar: 3 € (só com receita de dermatologista)
Vapores – 3 € (Ventilan pago à parte)
Desencucanços – 4,75 € (no final as asinhas do cuco podem ser utilizadas em churrasco)
Desintoxicações
- de Lexotans: 0,25 € (trazer saquinho para bolsar)
- de Fairy: 0,50 € (ter o vileda sempre à mão)
- de crabbe au curry: 75 €
- de gelado: 5 € sem bolacha, 10 € com bolacha
Remoção de traumas devidos a Cartas astrológicas
- de todos os signos excepto aquários: 2,5 €
- aquários: 35 € (com oferta de um tratado de numerologia)
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28 Janeiro 2007
Toda a alma precisa duma boa decoração.
Remoer – Processo pelo qual uma ideia passa num tabuleiro da sala de jantar para a cozinha sem deixar a acidez dos restos transformar-se em mau feitio espalhado pelo chão.
Encucar – Técnica de lacagem das portas da arrecadação, e que lhes permite, ao estarem fechadas, parecerem-se a autênticas paredes de oratório em tempo de quaresma.
Elucubrar – Trabalho minucioso de marmoreados que pode levar um nicho com banalidades emocionais de fancaria parecer-se a um arranjo de baixelas sempre a brilhar.
Ruminar – Preparação do estuque que vai servir para disfarçar as rachas provocadas pelas infiltrações de boas intenções numa empena de desenrascanços.
Florear – Técnica destinada às barras de cortinados e que permite às bainhas dos sentimentos, mesmo andando sempre arrojar pelo chão, julgarem-se a esvoaçar ao vento.
Procrastinar – Tipo de torcido de verga mental usada em canapés, que acabam por não sair do hall porque nunca combinam com os sofás da sala coçados pelos remorsos.
Congeminar – Pavimento flutuante especialmente adaptado a zonas de passagem e que permite aos tacões afiados dos saltos altos soarem como autênticos pezinhos de lã.
Pirronar – Tipo de passe-partout que põe um simples emaranhado de sensações pífias parecer-se a um pollock de sentimentos nobres.
Aliviar – Modelo de abertura de estores que, com a deslocação da luminosidade no entardecer, permite saber se o cu está virado para a lua.
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27 Janeiro 2007
1) A sua fotografia é boa mas nada que justifique o repouso, de agora em diante, à sombra dos pneus.
2) Votarei em plena consciência de mãe que nunca abortou e estou farta de ler propaganda ao ‘não’.
3) Aqui como na eternidade do Vinicius.
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24 Janeiro 2007
Gostaria também de vos dizer que me estou bastante a borrifar para os dramas pessoais e soberanamente a cagar para os dramas colectivos. Não é bonito de se dizer, não, e, saibam, não é sequer interessante de se sentir, mas a verdade é esta, não há que escamoteá-la, nem escanhoá-la, nem escalpelizá-la e agora não me estão a ocorrer mais palavras giras começadas por ‘esca’ tirando escalope e esgadanhar se bem que esta última tenha um malandro dum ‘g’ de gato. Um drama pessoal geralmente incomoda, desconcentra-nos e, não raras vezes, contemplá-lo torna-nos mais egoístas ainda, focando-nos no agradecimento bacoco pela nossa condição de meros gajos que apenas são espremidos até ao tutano pelo mundo cruel, mas que no fim acabam por não no-lo chupar (o tutano, registe-se) e ainda deixam qualquer coisinha para nós próprios desfrutarmos, género ir ao cinema, fumar um charuto ou mesmo empurrar o baloiço duma criança de faces rosadas e a dizer papá adoro-te, e se me deres uma nova playstation ainda poderei gostar mais de ti do que dos morangos com açúcar. Para além disso ainda não tenho uma opinião formada sobre o disco do JP Simões, e isso chateia-me, até porque sobre o referendo já tenho, mas, basicamente, eu hoje estou parvo, ou melhor, notar-se-á mais que estou; para compensar, a senhora dona aqui do estabelecimento até que podia pôr uma fotografiazinha para animar e tal.
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