One In A Million – Lene Lovich
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1ª lição – Os grandes jectivos: o Ob e o Sub
a) Objectivamente Jesus morreu pregado numa cruz, subjectivamente Deus sofreu pelos Seus filhos
b) Objectivamente a Ota é um aeroporto, subjectivamente é uma plataforma de 243.657 estacas entalada entre um aquífero e uns sobreiros
c) Objectivamente Portugal é uma nação, subjectivamente é onde encalhámos
d) Objectivamente um beijo são dois lábios a juntarem-se, subjectivamente são dois corações a juntarem-se
e) Objectivamente o SCP vai em terceiro, subjectivamente vai em primeiro
f) Objectivamente o Morse é um código, subjectivamente também
g) Objectivamente J L Borges não escreveu um livro de jeito, subjectivamente ensinou imensa gente a ler
h) Objectivamente o Casino fica no Estoril, subjectivamente é para onde estivermos virados
i) Objectivamente os fenómenos são coisas que acontecem, subjectivamente são coisas que nos acontecem
j) Objectivamente é Natal quando a gente quiser, subjectivamente não
k) Objectivamente Portugal está no rumo certo, subjectivamente Manuel Pinho é ministro
l) Objectivamente mamilo é uma palavra horrível, subjectivamente rima mal com Esquilo, ou bem com Camilo ( mas, nem objectiva, nem subjectivamente, rima com Castelo Branco)
m) Objectivamente ninguém nos conhece, subjectivamente até parecemos transparentes
n) Objectivamente o suprematismo russo é uma corrente artística, subjectivamente ninguém sabe ao certo o que é
o) Objectivamente Kavafavafafodavavissenãometáassaiarvis é um poeta grego, subjectivamente é um gajo que só o lê quem não tem pilinha em condições para brincar
p) Objectivamente Engenharia é a técnica dum gajo que faz umas contas abstractas aplicadas a uma realidade concreta, subjectivamente é um curriculum concreto obtido duma forma abstracta
q) Objectivamente a alma humana não se vê, subjectivamente só não a vê quem não quer
r) Objectivamente a adolescência é uma fase, subjectivamente é um mercado alvo e o que faz um pai calvo
s) Objectivamente o crepúsculo é o momento da passagem da tarde para a noite, subjectivamente é a passagem da noite para o dia
t) Objectivamente o ‘enriquecimento sem motivo aparente’ é um indício criminal, subjectivamente é bom
u) Objectivamente o cristianismo é um enquadramento cultural, subjectivamente é um negócio paralelo de almas
v) Objectivamente quase ninguém conhece a Karen Dalton, subjectivamente nunca mais ninguém cantou assim
w) Objectivamente o Morandi só pintou copos e garrafas, subjectivamente melhor que ele a pintar a alma só o Ingres com os banhos turcos
x) Objectivamente a ‘ciência’ tende a confundir equilíbrio com ausência de dispêndio de energia, subjectivamente não há equilíbrio sem fazer um esforço do caraças
y) Objectivamente o teatro é uma arte, subjectivamente é aquela coisa que até põe o André Gago a fazer de Hamlet
z) Objectivamente este post está entre a parvoíce e a treta, subjectivamente deu para aliviar a tensão acumulada entre a falanginha e a falangeta.
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Romance, aka Romanza – versão de Miriam Makeba
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D. Flourenço tinha duas paixões: a estatuária pré Praxiteliana e o espólio perdido de Calímaco. De dia sonhava com Diadumenos de corpos epsilonizados e de noite sonanbulava com inversões poéticas inspiradas em Conópions com pêlos. Todos os dias era um castigo para se levantar porque lhe pesava a erudição naquela zona da nuca onde o indecente bafo se aloja, e por vezes impudicamente se cola que nem espuma de poliuretano mal expandido. Declarou-se um dia escritor. Iria fundir a poesia com a anatomia, o sentimento com o fermento, traria a castidade para fora do convento e faria dum obsceno gemido a ternura dum lamento. E foi assim que, da épica para a lírica e da coxa para o lombo, se deixou envolver por dois amantes ciumentos: um que parecia um verso alexandrino da cintura para cima e outro que se assemelhava a um vilancete da cintura para baixo. Vivia que nem uma autêntica redondilha.
De manhã, a um recitava adaptações de Rufino, e, à tarde, a correr, ia provando palmilhas de cortiça ao outro que se mascarava de Aquiles. A situação ia ficando insustentável, até porque a certa altura já misturava os quiasmos com os anacolutos e esteve quase a apanhar uma epanadiplose na anáfora. Já não conseguia descortinar o que era físico e o que era espiritual, o que era bavaroise e o que era bacanal, e ora se mostrava elíptico ora pleonástico, mas sentia-se incapaz de parar. Chegou a pensar em escrever contos para crianças, mas temeu viciar-se nas alegorias, chegou a ficar dependente das sinestesias, passou uma temporada a recitar ditirambos de Baquilíades para se libertar, mas, no fundo, tinha duas casas para alimentar e precisava daquilo com que se compram as hipérboles. Voltou por fim à sua vocação inicial, recolhida no berço maternal: traduzir frases de Platão para Agatão, sem dar ouvidos às falas enigmáticas de Diotima, e sem se preocupar quem está por baixo e quem está por cima.
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Não sei se estava a referir-se premonitoriamente aos três pontinhos que os lagartos sacaram à tripeirada naquele estádio que tem mais correntes de ar que a plateia do teatro da trindade. Ao assim ser, faço-lhe notar que, quando um treinador chamado Jesualdo, que às primeiras até aparenta ser uma corruptela aligeirada do nome do Redentor, é confrontado com um outro, que já de se si é Bento, cria-se uma situação de inferioridade teológica de alguma monta; analisemos: enquanto a ‘benção’ é um acto que pretende valorizar um bem terreno, dotando-o de propriedades que garantam ao seu usufrutuário uma maior comparticipação das benesses transportadas graciosamente pelo próprio crucificado (penso que o Cardeal Patriarca ainda vai aproveitar esta frase, nem que seja na pastoral das costureiras), a redenção é um acto divino que, ao ser indevidamente apropriado por indivíduos sem preparação ou envergadura, pode acarretar efeitos secundários, inclusivamente mais perniciosos que os falsos profetas, ou as micoses disfarçadas de lepra bíblica. Ou seja, o particípio passado do verbo ‘Jesualdar’, (acto de um tipo de redentor que à última hora se vai baldar e vai para os copos com o bom ladrão) ao ser confrontado com a forma substantivada do verbo ‘benzer’, mesmo no seu estado passivo (pessoa que incorpora humildemente o lastro secular da tentacular carícia divina – esta frase também julgo que não esteve mal) tem bastantes probabilidades de engasgar e ficar a debitar uma miscelânea de preposições pastosas com adjectivos furunculados. Penso que, hoje, até Rui Santos poderá dizer coisas acertadas, pois, quando a lagartada ganha, até parece que duplicam os dons do Espírito Santo; no fundo, as coisas começam, todas elas, a fazer mais sentido.
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Está provado que o efeito cruzado entre o tgv e a abolição dos isqueiros bic permitirá a alargar o raio de eficiência duma urgência hospitalar em 73,5 km. E se a esta combinação for associada uma subida de 15% no uso dos genéricos, um cartão único com foto tipo passe, a restrição ao uso de adjectivos na forma superlativa, e a redução das correntes de ar no palco do S. Carlos, então praticamente só com uma urgência em Abrantes, uma coincineradora em Figueiró do Vinhos, e seven up à borla para todos, a reforma do país fica feita.
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Desde que esta coisa dos blogs se tornou uma filial do youtube nunca mais se conseguiu dar um passeiozito pela blogaria descansado e descontraído. Ele há um pouco de tudo, mas, basicamente, ninguém quer perder a hipótese de descobrir um achado youtúbico, uma novidade cacaregante. Tenho algumas saudades dos tempos em que as verdadeiras discussões que interessavam eram sobre quem punha e não punha fotografias, quem tinha ou não comentários, quem tinha ou não aldrabado a leitura do Proust, quem usava e abusava ou não dos itálicos, quem citava ou não o Pavese, e depois, até quem impingia ou não uma musiquita. Qualquer dia, em vez de se gozar com o pacheco pereira, ou com a florbela espanca, até haverá gente a pôr vídeos com saraus de ginástica ou entrevistas com o Armando Vara. Falhos de conteúdo, cansados da forma, e obliterados de imaginação, deixámo-nos levar pela ilusão do movimento.
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A Sra ainda me está em falta com a fotografiazinha do ‘abafador BES’ – ‘o berlingador de estatutos’, mas não resisto a trazer aqui à postagem que, quando colocou aquele seu último cartoon com a ruiva encostada à carripana do gajito de cabelo ralo, numa diáfana provocação, lembrei-me de imediato da capa do disco dos ‘Beirut’- ‘Gulag Orkestar’, saído o ano passado. Quero-lhe desde já dizer que, independentemente da capa, – já lá iremos – o disco é muit’bom. No fundo até será eventualmente apenas um puto virtuoso a cantar músicas inspiradas naquilo que se pode chamar o folk-aciganado da europa do leste, uma mistura de morricone com kusturica (já ouviu os ‘Devotchka’ por acaso?) apesar do gajo ser bem americano, do mesmo sítio donde vieram os ‘The Shins’, que conhece certamente pois toda a gente fala desses gajos que fazem música para elevadores panorâmicos e bichas na autoestrada. Mas a sra se calhar pode não gostar deste, temo-o, até porque o Cura não conseguia cantar daquilo em condições, e isso descompensa-a bastante, já sabemos. Ora o disco começa logo com uma cornetada arrastada ali entre a marcha e a tourada e depois é um vê se te avias de música boa, como só um gajo que ainda nem fez 20 anitos consegue fazer. (a partir dos 25 só querem fazer letras, mas para isso já existem as massinhas da canja, não será?). Há lá uma musiquita mais badalada que é o ‘Scenic world’ – dizem mesmo que as letras do disco são uma porcaria (neste contexto cabia melhor o termo ‘merda’, mas como é para a Sra escrevi porcaria), mas aqui para nós eu nem percebo o que o gajo diz (ou half-esganiçadamente canta, mais propriamente) – só que, quando chegar à faixa nº 5 ‘Postcards from Italy’, verá que estamos perante um ganda disco, gingão, melodioso, envolvente e isso tudo, e, como dizia um crítico do cdtimes.co.uk (tope só a pintarola destas referências) «the perfect antidote to the rush of skinny guys with guitars and spiky hair that seem to prevail at the moment» que eu muitas vezes lhe ‘faço’ouvir (pus estas semi aspas para ficar claro que só ouve se quiser e eu nem fico blindado, perdão lá lapsei de novo – e nem sei porque é que este ‘blindado’ se me encrostou no subconsciente – melindrado, queria eu dizer, se não as ouvir).
Voltemos mas é à capa do disco que é o que realmente interessa. Olhe, é que já nem se fazem pernas daquelas, e repare-me nas alcinhas – credo, e ainda há quem compre o disco para ouvir a música – na parte da matricula só a ver-se ‘AA’ como se até ao carro estivessem a eriçarem-se-lhe os bornes da bateria, no lencinho a apanhar o cabelo, nas pernas semi traçadas, nos joelhos rechonchudos e renascentistas, a rapariga a subir ligeiramente a saia e a mostrar bem o forro encarnado, e a deixar cair o olhar, ficando nós a pensar – eu cá fiquei – se será vergonha, se desinteresse, mas sem pôr de parte a hipótese da malandrice – nem sei o que lhe diga mais, mas ficava mal se me fosse sem lhe recomendar a faixa 9, ‘Bratislava’, que começa com uma bandolinzada deliciosa, e também se deixa ouvir tão bem; saliento-lhe ainda (salientar é bastante masculino) que o disco termina com uma música já um pouco mais lamurienta, mas com um título deveras sugestivo: ‘After the curtain’, que certamente até a pode vir a acompanhar em momentos de mais agulha e dedal que, como se sabe, preenchem a vida duma fada do lar; olhe madame, faça-me outra vez a fineza, googla-me a imagenzinha da capa do disco, é fácil, e eu só terei pecado por inabilidade na descrição, e coloca-a aqui neste estabelecimento que tão cirurgicamente administra, e que eu tão criteriosamente abandalho (agora até arranjava uma rima jeitosa, mas não dá), pode ser? Ah, e a nº 2, ‘Prenzlauerberg’ (nem o Wagner arranjava nomes assim) acompanha optimamente com pão e azeitonas, apesar do óptimo ser inimigo do bom, já se sabe.
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Novo vencedor do concurso BES FOTO
Eu cá agora sugeria à mme que me anda sempre a mandar aqui boquinhas e coiso que arranjasse uma fotografiazinha assim dum berlinde com o símbolo da PT lá dentro e com o dedinho de Sócrates a dar-lhe uma quincadelazinha e com o Belmiro de bibe a pedir que então lhe deixem agora abrir os supermercados aos domingos à tarde e assim senão eu também fico um bocadinho blindado perdão melindrado e se quiser legendá-la como Abafador BES também pode mas não sei se serão muitos trocadilhos juntos e tal.
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Melhor filme
Referendo ao aborto (apesar de ser uma sequela, desta vez as t shirts eram piores mas as miúdas mais giras)
Melhor realização
Sócrates, sempre entre o ‘fazer o que tem de ser feito’e o ‘quanto mais choram menos mijam’, juntando o potencial mímico do cinema mudo com o potencial distractivo dos grandes musicais
Melhor montagem
Vasco Rato e Odete Santos juntos na luta pelos direitos da mulher
Melhor argumento original
O reformismo socratalista. Um guião baseado na ideia de Portugal como uma grande Cova da Iria, em que todos somos pastorinhos a tratar de arranjar a melhor sombra na Azinheira, mas, no fundo, sabendo que a coisa só se resolve mesmo quando a Santa aparecer. Realizado por Joaquim Sapinho, dado que, se o temos de engolir ao menos que seja pequenino
Melhor argumento adaptado
Reuniões Camarárias na CML ( baseado no livro de fusão: ‘A última ceia em Paris’, mas sem vaselina (leia-se manteiga) nem beijo de judas)
Melhor documentário
Correia de Campos é apanhado por um frúnculo na virilha às 2 da manhã em Chaves com o motorista a trocar o alibut por vaqueiro com alho, ex aequo com a dissertação do casal C. Silva sobre a comida indiana
Melhores efeitos especiais
Feto às dez semanas, com nariz às treze, pila às doze, risinho sacana às quinze e micoses free
Melhores guarda roupas
Clara de Sousa e Paulo Portas no ‘estado da Arte’ ex aequo com Mª José Morgado (prémio carreira pela decoração dos olhos)
Melhor direcção artística
Aquele gajo da quadratura do círculo que consegue fazer o Jorge Coelho parecer uma espécie de entretém amestrado do JPP e do ALX, fazendo-lhes as pausas para beberem um copinho de água
Melhor banda sonora
Ladainha do: ‘mas alguém quer que as mulheres vão para a cadeia’
Melhor filme de animação
M. Pinho na loja do chinês reclamando que os produtos estão caríssimos e não há planos tecnológicos da playmobil
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