De passagem

30 Março 2007

informam-se os dois leitores confessos (e todos os outros, incluindo tímidos, indecisos, envergonhados, curiosos ou acidentais) deste blog que, na sequência de acordo longa (ou nem por isso) e duramente (isso sim) negociado, o progenitor desta pequena (mas cuidada, há que dizê-lo) obra de arte (e design, ora essa!) regressa, de letras e imagens, à sua morada principal (e da qual nunca deveria ter saído mas, como qualquer mãe sabe, os homens crescidos são mais dados a birras que os miúdos em idade de jardim de infância):

«Desfazedor de rebanhos»

Com os melhores agradecimentos pela atenção dispensada e não tendo à mão, lamentavelmente, qualquer citação de autor russo que, a preceito, traduza o estado d’alma, fica a despedida com um abraço a todos quantos, por bem, vieram até aqui ao longo destes meses.

Amanhã é outro dia.


O país por um canudo

25 Março 2007

Depois de se ter passado uns meses atrás das sestas e das festas de Santana Lopes não vejo porque não se possa andar um bocado atrás do canudo de Sócrates. A imprensa tem de ser coscuvilheira, é essa a sua missão, para pensar por nós já temos os burocratas da CEE , a Inês Pedrosa e o Ruben de Carvalho.

Num país em que as maiores mobilizações nacionais são o pirilampo mágico, os morangos com açúcar, e os gatos fedorentos, penso que sermos guiados por um cérebro filho duma pauta rasurada até era algo que ficava bem a condizer, e eu cá aproveitava o balanço e fazia também uma contagem de neurónios a uma rapaziada avulsa (de envergadura ministerial) e, se não desse cabo do orçamento do SNS, uma massagem cardíaca à oposição, visto que a estes, do pescoço para cima, já será desperdício de recursos. A não ser para procurar nódoas negras na versão oxidada de dama de ferro.

Qualquer dia ainda tenho saudades do tempo em que éramos governados por um engenheiro electrotécnico que rezava o terço, e, na oposição, o problema maior era o Nelo Monteiro usar um casaco dois números acima.


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25 Março 2007

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«E’er friend for today, is tomorrow’s heartbreak.»


(As melhores) declarações de amor (lidas e ouvidas) em Fevereiro

11 Março 2007

Bonnie ‘Prince’ Billy, no seu disco do ano passado ‘The letting go’, começa logo na primeira faixa ‘Love comes to me’ com um delicioso : «O, sugar won’t you be my only / I’m a hard-hearted honey-pot hungry shepherd / And I’m longing to be born for you». Ora dizer-se que desejávamos ter nascido por/para alguém, é – para além dum desafio ao criador – um dos clímax na declaração amorosa; ao mesmo nível está a obrigatória insaciedade, elemento fundador da relação amorosa, sem a qual ela se pode parecer a uma mera receita de arroz doce; os ‘The Shins’, aquela mistura deliciosa entre os ‘Smiths e o Tony Carreira, no seu recente ‘wincing the night away’, cantam em ‘Red Rabits’: «Born on a desert floor, you’ve the deepest thirst, / And you came to my sweet shore to indulge it, / With the wan and dreaming eyes of an orphan,/ But there is not enough, /There is not enough.». Isto ficou imediatamente a pedir assim uma coisinha mais suave, e o ícone do country-folk-rock americano, (ícone é sempre um bom e sugestivo nome para usar) Lucinda Williams ( que tem já este ano um disco novo – ‘West’) não desilude no seu disco mais famoso ‘Car Wheels On A Gravel Road’ e, em ‘Right In Time’, canta o tão necessário e reconfortante óbvio: «Not a day goes by I don’t think about you / You left your mark on me it’s permanent a tattoo / Pierce the skin and the blood runs through / Oh my baby / The way you move it’s right in time».

Faço ainda notar que «poets remain in love for the rest of their lives», como escreveu Robert Graves, o seco poeta ( e mais) inglês ( do qual eu não percebo 99% dos poemas, e que viveu uma paixão obsessiva (*) com a poetisa americana Laura Riding – conhecida por tê-lo manipulado que nem um folhado de salsicha entremeado de crepe chinês e, por, um dia, pura e simplesmente ter deixado de escrever poesia, e ter-se dedicado à escrita filosófica pré- alain de boutton), que também, num dos seus mais célebres poemas ‘To Juan at the Winter Solstyce’, enuncia, por acaso, o maior dogma reprimido da amorosidade: «There is one story and one story only »( como se comprova eu só consigo apanhar uma ou outra frasezita simples e solta do gajo). Mas nem a alma nem o corpinho aguentam tanta Musa Enigmática e distante, e o mês acabou a ouvir repetidamente ‘The Charlatans’: «Loving you is easy ‘cause you’re beautiful». Obrigatório, como agora, obrigatoriamente, se deve dizer.

(*) em 2008 aparentemente sairá o filme ‘Poetic Unreason’, que retrata esta relação entre Robert Graves e Laura Riding, e no qual a personagem desta moça será interpretada pela Frances O’Connor, um dos narizes afilados e empinados mais embirrantes da história do cinema moderno. Está bem para a Laurinha.


You gotta give to get

9 Março 2007

El Perro del Mar – «God Knows»


liebling Sünden

21 Fevereiro 2007

«Wer meines Speeres Spitze fürchtet,/ durchschreite das Feuer nie!»

Wagner – Die Walküre

Última cena (3ª) do 3º acto d’A Valquíria - Richard Wagner (Bayreuth, direcção de Pierre Boulez, Donald McIntyre como Wotan)


O homo erectus já não é o que era

8 Fevereiro 2007

«Eu quando escrevo procuro não alimentar nenhuma fantasia» disse ainda VPV na sua tão badalada entrevista à televisão que finalmente acabei de ouvir.


Eu cá se fosse ao Moisés nunca tinha saído do Egipto

6 Fevereiro 2007

Moral’ e ‘consciência’, duas das mais puras e mirabolantes construções da linguagem humana ( não sei se nos golfinhos haverá algo parecido), servem de biberon e agitador ( e palhinha) à espuma dos dias. É um pouco como discutir a vida sexual baseados no orgasmo das pestanas e no clitóris da papoila, ou discutir o direito romano com base no assassinato de Papinianus por Caracala.


Assim meia dúzia só para aliviar

6 Fevereiro 2007

(e matar saudades)

Acto médico – O que está a meio caminho entre o do barbeiro e o da costureira, mas está isento de Iva

Acto sexual – Sublimação mecânica duma pulsão química recalcada entre um sonho biológico e uma livre associação (tomate e alface servidas à parte)

Acto único – Aquele que nem conseguiu ser Constituição nem sai de cima

Acto e potência – Forma como Aristóteles conseguiu sacar um arroz à valenciana quando a mulher só lhe queria dar arroz branco (aqui arroz de Herpilias também dava um trocadilho giro)

Acto cénico – Parte duma dramaturgia que serve para a Beatriz Batarda amaranhar pelas paredes porque o don juan não apareceu e só lhe saem hipólitos sem sal

X-acto – (fodasse, tanto afiei que agora me arrepiei)


E ao 7º dia pronunciou-se

4 Fevereiro 2007

«os patriotas não se devem afligir com a “imagem de Portugal no mundo”, se o mundo tem a mais vaga imagem de Portugal, o que nada indica. Apesar dos milhões que se gastam em propaganda turística e em viajatas várias, para a maior parte da humanidade Portugal, coitado, não existe (…) A maior gaffe da viagem foi a viagem. » pelo nosso Pulido Valente, no Público de hoje.

Façamos agora aquele exercício básico…

«os fãs não se devem afligir com a “imagem de Vasco Pulido Valente no mundo”, se o mundo tem a mais vaga imagem de Vasco Pulido Valente, o que nada indica. Apesar dos milhões de palavras que debita em comentarísmo turístico e em historietas várias, para a maior parte da humanidade Vasco Pulido Valente, coitado, não existe (…) A maior gaffe dos seus artigos são os seus artigos».

Parece-me justo. VPV, cada vez mais previsível que uma bordadeira de naperons, andou vários dias a pensar de que forma é que conseguia dobrar a tontice de M. Pinho e dizer qualquer coisita que mais ninguém tivesse dito, e, principalmente, que nos levasse inevitavelmente àquela malvada salazarice invisível que nos persegue: sossegadinhos para não levantarmos muito pó.

Já causa sonolência tanta verborreia em torno da nossa pequenez implícita e explícita, e piora quando a conclusão é ainda reforçá-la – artificial e retoricamente – mais. Sócrates, amigo, fizeste bem em ir, o Hu Jintao ( belo nome) andava a fazer de novo colonizador, não te preocupes, um dia bate a bota e ficam os outros, fizeste bem em te artilhares para o jogging, são geralmente as tuas melhores imagens, e fazes melhor ainda em ter ministros broncos porque, se não, repara, falávamos de quê?

Nota:  João Pereira Coutinho, no Expresso de ontem, tem uma certeira consideração quando diz que os agora apoiantes do não (como eu) andaram a dormir em cima da lei actual, julgando que o problema tinha ficada enterrado, e mais enterrado ainda com uma lei feita letra morta, que se foi tornando para muitos ‘uma lei a feder para lá do tolerável’. Sobejou-lhes (me) de catequese e que lhes (me) faltou de investimento na realidade.