De passagem

30 Março 2007

informam-se os dois leitores confessos (e todos os outros, incluindo tímidos, indecisos, envergonhados, curiosos ou acidentais) deste blog que, na sequência de acordo longa (ou nem por isso) e duramente (isso sim) negociado, o progenitor desta pequena (mas cuidada, há que dizê-lo) obra de arte (e design, ora essa!) regressa, de letras e imagens, à sua morada principal (e da qual nunca deveria ter saído mas, como qualquer mãe sabe, os homens crescidos são mais dados a birras que os miúdos em idade de jardim de infância):

«Desfazedor de rebanhos»

Com os melhores agradecimentos pela atenção dispensada e não tendo à mão, lamentavelmente, qualquer citação de autor russo que, a preceito, traduza o estado d’alma, fica a despedida com um abraço a todos quantos, por bem, vieram até aqui ao longo destes meses.

Amanhã é outro dia.


u’r

29 Março 2007

 

 One In A Million – Lene Lovich


Ecce homo abandonatis

28 Março 2007

É triste, mas é verdade. A patroa aqui do estabelecimento não liga nenhuminha ao que eu escrevo; e dedica-se, inclusivé, a elaborar grandes e sofisticados textos sobre o que outros meninos escrevem em torno de obtusas correlações e causalidades relativas ao empolgante tema da condição feminina. Estou a enciumar, é oficial. É que nem um mailezinho com uma palavra de conforto, nem uma sms com um smilezinho, ou mesmo com um ‘ó querido tem que se esforçar mais’, ou até um ‘perdeu a piada e o jeito, dedique-se a fazer spin-offs, e a explorar trabalhadores indefesos e envoltos em precaridade’; é que já nem peço um postezinho com mais de 3 linhas sem itálicos, já praticamente só peço uma palavra de ânimo, do género: «ânimo!»; estou objectivamente relegado para um mero valete de companhia aqui do blog, mero bloguista objecto, uma pura bucha para preencher o espaço entre os posts incrivelmente interessantes e bem pensados, que outros meninos superlativamente interessantes e cultos escrevem noutros blogs genuinamente interessantes e profundos. Já nem sou propriamente um verbo-de-encher, julgo não sair sequer do estatuto de advérbio circunstancial de encher. Sinto-me na prateleira dos afectos, um prêt-a-porter de trocadilhos de efeito duvidoso, um dr house sem cameron. Repito, é oficial, enciumei, estou ferido nas minhas réstias de orgulho, e prenhe daquela clássica insegurança varonil que assola o género masculino entre os momentos de euforia e os de deslumbramento, e que só passa com duas pastilhas para a azia e umas festinhas com unguento.


«dusk by the sea» (aka estoril landscape)

27 Março 2007

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Manual de auto ajuda para amestradores de bivalves e outras mentes em estado de captação

27 Março 2007

1ª lição – Os grandes jectivos: o Ob e o Sub

a) Objectivamente Jesus morreu pregado numa cruz, subjectivamente Deus sofreu pelos Seus filhos

b) Objectivamente a Ota é um aeroporto, subjectivamente é uma plataforma de 243.657 estacas entalada entre um aquífero e uns sobreiros

c) Objectivamente Portugal é uma nação, subjectivamente é onde encalhámos

d) Objectivamente um beijo são dois lábios a juntarem-se, subjectivamente são dois corações a juntarem-se

e) Objectivamente o SCP vai em terceiro, subjectivamente vai em primeiro

f) Objectivamente o Morse é um código, subjectivamente também

g) Objectivamente J L Borges não escreveu um livro de jeito, subjectivamente ensinou imensa gente a ler

h) Objectivamente o Casino fica no Estoril, subjectivamente é para onde estivermos virados

i) Objectivamente os fenómenos são coisas que acontecem, subjectivamente são coisas que nos acontecem

j) Objectivamente é Natal quando a gente quiser, subjectivamente não

k) Objectivamente Portugal está no rumo certo, subjectivamente Manuel Pinho é ministro

l) Objectivamente mamilo é uma palavra horrível, subjectivamente rima mal com Esquilo, ou bem com Camilo ( mas, nem objectiva, nem subjectivamente, rima com Castelo Branco)

m) Objectivamente ninguém nos conhece, subjectivamente até parecemos transparentes

n) Objectivamente o suprematismo russo é uma corrente artística, subjectivamente ninguém sabe ao certo o que é

o) Objectivamente Kavafavafafodavavissenãometáassaiarvis é um poeta grego, subjectivamente é um gajo que só o lê quem não tem pilinha em condições para brincar

p) Objectivamente Engenharia é a técnica dum gajo que faz umas contas abstractas aplicadas a uma realidade concreta, subjectivamente é um curriculum concreto obtido duma forma abstracta

q) Objectivamente a alma humana não se vê, subjectivamente só não a vê quem não quer

r) Objectivamente a adolescência é uma fase, subjectivamente é um mercado alvo e o que faz um pai calvo

s) Objectivamente o crepúsculo é o momento da passagem da tarde para a noite, subjectivamente é a passagem da noite para o dia

t) Objectivamente o ‘enriquecimento sem motivo aparente’ é um indício criminal, subjectivamente é bom

u) Objectivamente o cristianismo é um enquadramento cultural, subjectivamente é um negócio paralelo de almas

v) Objectivamente quase ninguém conhece a Karen Dalton, subjectivamente nunca mais ninguém cantou assim

w) Objectivamente o Morandi só pintou copos e garrafas, subjectivamente melhor que ele a pintar a alma só o Ingres com os banhos turcos

x) Objectivamente a ‘ciência’ tende a confundir equilíbrio com ausência de dispêndio de energia, subjectivamente não há equilíbrio sem fazer um esforço do caraças

y) Objectivamente o teatro é uma arte, subjectivamente é aquela coisa que até põe o André Gago a fazer de Hamlet

z) Objectivamente este post está entre a parvoíce e a treta, subjectivamente deu para aliviar a tensão acumulada entre a falanginha e a falangeta.


unbreakable, he said (*)

27 Março 2007

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(*) ou «a alma do objecto dele vista do lado do seu sujeito com jardim de flores, copos meio-cheios e garrafas meias-vazias ao fundo»

 


O país por um canudo

25 Março 2007

Depois de se ter passado uns meses atrás das sestas e das festas de Santana Lopes não vejo porque não se possa andar um bocado atrás do canudo de Sócrates. A imprensa tem de ser coscuvilheira, é essa a sua missão, para pensar por nós já temos os burocratas da CEE , a Inês Pedrosa e o Ruben de Carvalho.

Num país em que as maiores mobilizações nacionais são o pirilampo mágico, os morangos com açúcar, e os gatos fedorentos, penso que sermos guiados por um cérebro filho duma pauta rasurada até era algo que ficava bem a condizer, e eu cá aproveitava o balanço e fazia também uma contagem de neurónios a uma rapaziada avulsa (de envergadura ministerial) e, se não desse cabo do orçamento do SNS, uma massagem cardíaca à oposição, visto que a estes, do pescoço para cima, já será desperdício de recursos. A não ser para procurar nódoas negras na versão oxidada de dama de ferro.

Qualquer dia ainda tenho saudades do tempo em que éramos governados por um engenheiro electrotécnico que rezava o terço, e, na oposição, o problema maior era o Nelo Monteiro usar um casaco dois números acima.