Eu, Portugalina

Conhecemo-nos em Aljubarrota, ele era arqueiro e eu costureira, porque já não havia vagas para padeira. Apaixonei-me pelo seu modo de agarrar as flechas, pelo seu balanço de corpo, fazia de vértice no quadrado, e ao pé do meu guerreiro amado, o nuno alvares mais parecia um escanzelado. Para festejar a vitória fomos comer angulas para sanxenxo – foi tão bonito – mas não havia maneira, estava escrito, ele caiu de beicinhos com a tal padeira. E foi então que ao passar a fronteira, eu não tive outro recurso, afiei a faca, contratei uns descendentes ilegítimos da dona Urraca, e à base de enxertos feitos no momento, mandei a padeira para junto do fermento. E foi assim que fiquei com o meu arqueiro só para mim.

Foram passando os anos e tudo nos corria bem: broa de milho, cabrito no espeto, parimos três damas de honor, um carpinteiro que me saiu preto, um marinheiro, um duende, e enriquecemos com flores de cheiro vindas do oriente. Até que um dia o meu arqueiro, numa viagem a Badajoz, numa curva fria escura, ficou com aquela coisa dura e quase desflorou duas avós. O sacana afeiçoou-se ao dinheiro das velhas e não fosse eu ter herdado um rebanho de ovelhas, que ele não teria voltado aos meus braços, que ainda hoje me doem de tanta força que fiz para o prender; mas ele ainda haveria de sofrer, com aquele feitiozinho dado a tanto foder.

Não foi tarde nem cedo, foi só aparecerem duas amantes à bulha. Uma francesa que tinha bordado a casaca do Napoleão, e uma inglesa, a quem Adam Smith chamava ‘minha riqueza’, e com quem depois brincava às mãos invisíveis. Com elas fazia coisas incríveis até eu me aperceber, melhor seria se eu não tivesse dado cabo do canastro da padeira, ao menos com ela vinha coberto de farinha e eu já sabia, mas agora murmurava, ufano, línguas estranhas, mas já não prestava do cano, de fundos estava parco, e já nem a espinha vinha em condições para vergar o arco. Tive de o deixar e fugir para Sangalhos.

Aí refiz a minha vida. Cozia bainhas e punhos de renda, e apaixonei-me logo por um rapaz que pescava tainhas e fornicava com venda; mas também me saiu uma rica penda: era mestiço, fala esperta, bigode postiço; decidi acalmar até me aparecer uma coisa mais certa. Foi então que conheci um escritor, modos finos, corpo a dar pró tísico, mas letra arredondada, e como escrevia hinos para a guarda assim tinha renda constante. Apaixonei-me num instante; ele chamava-me padeira mas eu não me importava, desde que ele tivesse um forno de lenha e eu casa montada. Era o caso; nunca cheguei a ser musa mas dava-lhe aquela coisa que rima aqui bem, e com a idade começou o vaivém com os dinheiros duma tal comunidade; ele agora apenas escrevia às quartas, fornicávamos às quintas, eu bordava à sextas e, para não parecermos pelintras, pintei umas madeixas.

De vez em quando tinha saudade do arqueiro, daqueles braços robustos, do seu jeito para alisar bustos, mas habituei-me a ser padeira em Sangalhos, pus as hormonas em vinha de alhos, e agora, com uma vida sem glórias, pedi ao meu escritor enfezado que me escrevesse as memórias.

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