The f. ’rendum

Existe um novo desporto nacional (*): acompanhar o que fernanda cancio (com circunflexo – o nome, claro) escreve, e que se encontra também em glória fácil (http://gloriafacil.blogspot.com), sobre o referendo ao ivgorto.

O conteúdo já pouco importa, e, tal como na discussão sobre o futebol, o essencial é ver se os argumentos passam ou não pelo crivo do slow motion. Ou seja, se aquilo tudo dito, mas mais devagarinho, com as câmaras a apanhar todos os ângulos, continua a fazer sentido. Basicamente, tudo me parece um pouco a famosa ‘mão de Vata’ (atenção isto não é trocadilho!!! Estou mesmo a referir-me à famosa mão do lampião Vata) um bailado esbracejante de retórica, crendices e voluntarismo, mas que por vir acompanhado de boa música nos encanta.

Mas eu confesso, gosto daquilo; não a acho tanto um Afonso Costa, como dizia o João Gonçalves do PdP (http://portugaldospequeninos.blogspot.com), mas sim um Ronaldinho Gaúcho da liberalização, (tudo comparações masculinas, que aborrecimento) alguém a quem se perdoam todos os rodriguinhos, todas as bolas que apenas foram feitas para bater no poste e rodar pela nuca, mas, desde que, meu Deus… um sorrizinho, vá, apenas um sorrizinho malandro.

A minha opinião sobre o tema é também irrelevante: votarei ‘não’ porque a Igreja manda; não bufem, trata-se dum mero raciocínio dentro da economia pessoal da salvação; já me são bastantes os pecados mais clássicos da soberba (reparem que não disse luxúria) e afins, e outras desobediências avulsas, que tenho de poupar-me nestas coisas duvidosas e menores, e dalguma forma alheias; o sufrágio é também uma legitimação democrática do egoísmo, devemos votar por nós e não pelos outros porque, regra geral, pelos outros votam eles, isto tirando a ideia – de esquerda – de que nós é que sabemos o que é bom para os outros, claro.

Farei doravante apenas uma análise puramente técnica, serei o Gabriel Alves do ‘não’, e darei o devido ênfase à cobertura dos espaços vazios e às diagonais.

IVG – O Lorosae do Género feminino

Libertar o feminino do jugo duma sociedade masculinizada, falocêntrica nos preceitos e nas prioridades. Parece-me lindamente; até agora apenas a pílula, o micro-ondas, os caldos Knorr e os lubrificantes vaginais tinham feito alguma coisa de jeito pela mulher, exige-se que as leis da República acompanhem em conformidade, dado que o busto não evoluiu, e o cardeal está mais sensibilizado para a guerra química. A mulher é um paraíso petrolífero e não pode estar paralisado por ali alatas opressores e egoístas. Passada esta fase, entrando no ‘sim’ do dia seguinte, haverá sempre certamente uma Austrália qualquer para vir tomar conta da mulher, entretanto aliviada por não precisar de, clandestinamente, ir subir as saias para as montanhas.

A cada ovário o seu pilhão

A mulher é uma reserva ecológica. Parecendo claro que já não há mais argumentos nem dados novos do ‘sim’ e ‘não’, já se esgotaram as ideias peregrinas sobre contabilidades de traumas, ansiolíticos, despesas hospitalares, e prerrogativas de zigotos e companhia, a opção de curto prazo é sermos todos uma grande ASAE: a nova ética é a higiene, a comida pode ser uma merda desde que seja tudo feito muito limpinho. Procriar será apenas mais uma opção do big fuck menu, e os molhos devem ser incluídos.

A revolução grelária: o ovário a quem o trabalha

A mulher não é um pasto, não é um espaço de treino para pousios e fertilizações. É sim uma fonte de rendimento, porque, como se sabe, o verdadeiro capital são as pessoas, e tem de ser garantido que se produzem tendencialmente: boas pessoas. A mulher tem essa responsabilidade e esse direito: não é a dona do sacho, mas é ela mexe no tacho.

O tribunal das motivações

Mais importante que uma opinião é, como se sabe, uma motivação. Mais importante que o próprio ‘sim’ é que ele seja motivado pelo ‘respeito’ e não pela ‘pena’. Por exemplo, enquanto um ‘sim’ por respeito vale 10 pontos, um ‘sim’ por pena vale apenas 6, enquanto que um ‘não’ por respeito poderá valer entre 5 a 8, encontrando-se assim uma pequena franja de ‘não’s que poderão ombrear com alguns ‘sim’s que sejam apenas suscitados pela pena. O ‘não’ por ‘pena’ classifica entre 0 a 0,5 , mas até agora só foi encontrado o caso dum leitor do César das Neves que trabalha na sopa dos pobres da almirante reis e que tem medo de ficar sem hipótese de exercer a caridade às sextas em que não tem bridge. O ‘não’ apresenta ainda uma terceira motivação (aparenta ser mais rico em motivações, mas é aparente) que é o ‘não’ porque não, e classifica entre 0,5 a 5 consoante a) o cartaz que mais se identifique; b) argumento de bioética ter menos de 2 anos e não ser dum americano criacionista e evangélico; c) a fotografia de ecografia às 8 semanas já vir com o nº de sócio do sporting. O ‘sim’ de quem já deu graveto para um desmancho com anestesia e tudo (também conhecido por ‘muito boa pessoa’) tem bónus e pode encarrilar para o ‘sim’ dois votos nulos de católicos em crise pascaliana. O tribunal das urnas terá assim de fazer uma contagem ponderada, no fundo apenas uma forma mitigada do método de Hondt, e uma maneira de arranjar mais negócio à Euroexpansão.

Todos estamos de acordo, tomos queremos o melhor para as pessoas, todos sabemos o que é ‘o melhor’, todos sabemos o que é ‘querer’, só não sabemos o que são ‘pessoas’. Rushdie quando escreveu sobre a morte de Raymond Carver ( blaaaarghh) disse: «A sua morte é difícil de aceitar, mas pelo menos ele viveu». É o que se diz duma pessoa, no fundo.

(*) surripiei, corrompendo, uma expressão utilizada pela própria ‘f.’ (a propósito de Ana Gomes)

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