Breve história da Luxúria

Pega-se num desejo, afasta-se de tudo quanto o irrite e pinta-se com farripas de apetite. De seguida dá-se-lhe um banho de ausência, ensaboa-se de paciência, esfrega-se bem com a mão e seca-se com um feltro de ilusão. Depois deixa-se ao ar uns tempos para branquear ao sol, reza-se para que nunca fique mole, nem fuinha, e que volte para dentro com vontade do quentinho e da mãezinha. Sustém-se a primeira ameaça de gemido, asperge-se de líquido benzido, apela-se à graça do prazer imaginado, e estica-se em cima dum plano inclinado. Dá-se a cheirar. Se causar ardor nos olhos é falso e tem de ir centrifugar; mas se der lágrima escorrida está no ponto de aproveitar, é só evitar a frieza, fazer-se membro da nobreza, transformar o lamento em fermento, engrossar quando alguém lhe mexe, e pedir para ser transportado numa caleche.

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