D. Flourenço e seus dois maridos

D. Flourenço tinha duas paixões: a estatuária pré Praxiteliana e o espólio perdido de Calímaco. De dia sonhava com Diadumenos de corpos epsilonizados e de noite sonanbulava com inversões poéticas inspiradas em Conópions com pêlos. Todos os dias era um castigo para se levantar porque lhe pesava a erudição naquela zona da nuca onde o indecente bafo se aloja, e por vezes impudicamente se cola que nem espuma de poliuretano mal expandido. Declarou-se um dia escritor. Iria fundir a poesia com a anatomia, o sentimento com o fermento, traria a castidade para fora do convento e faria dum obsceno gemido a ternura dum lamento. E foi assim que, da épica para a lírica e da coxa para o lombo, se deixou envolver por dois amantes ciumentos: um que parecia um verso alexandrino da cintura para cima e outro que se assemelhava a um vilancete da cintura para baixo. Vivia que nem uma autêntica redondilha.

De manhã, a um recitava adaptações de Rufino, e, à tarde, a correr, ia provando palmilhas de cortiça ao outro que se mascarava de Aquiles. A situação ia ficando insustentável, até porque a certa altura já misturava os quiasmos com os anacolutos e esteve quase a apanhar uma epanadiplose na anáfora. Já não conseguia descortinar o que era físico e o que era espiritual, o que era bavaroise e o que era bacanal, e ora se mostrava elíptico ora pleonástico, mas sentia-se incapaz de parar. Chegou a pensar em escrever contos para crianças, mas temeu viciar-se nas alegorias, chegou a ficar dependente das sinestesias, passou uma temporada a recitar ditirambos de Baquilíades para se libertar, mas, no fundo, tinha duas casas para alimentar e precisava daquilo com que se compram as hipérboles. Voltou por fim à sua vocação inicial, recolhida no berço maternal: traduzir frases de Platão para Agatão, sem dar ouvidos às falas enigmáticas de Diotima, e sem se preocupar quem está por baixo e quem está por cima.

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