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29 Março 2007

 

 One In A Million – Lene Lovich

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Manual de auto ajuda para amestradores de bivalves e outras mentes em estado de captação

27 Março 2007

1ª lição – Os grandes jectivos: o Ob e o Sub

a) Objectivamente Jesus morreu pregado numa cruz, subjectivamente Deus sofreu pelos Seus filhos

b) Objectivamente a Ota é um aeroporto, subjectivamente é uma plataforma de 243.657 estacas entalada entre um aquífero e uns sobreiros

c) Objectivamente Portugal é uma nação, subjectivamente é onde encalhámos

d) Objectivamente um beijo são dois lábios a juntarem-se, subjectivamente são dois corações a juntarem-se

e) Objectivamente o SCP vai em terceiro, subjectivamente vai em primeiro

f) Objectivamente o Morse é um código, subjectivamente também

g) Objectivamente J L Borges não escreveu um livro de jeito, subjectivamente ensinou imensa gente a ler

h) Objectivamente o Casino fica no Estoril, subjectivamente é para onde estivermos virados

i) Objectivamente os fenómenos são coisas que acontecem, subjectivamente são coisas que nos acontecem

j) Objectivamente é Natal quando a gente quiser, subjectivamente não

k) Objectivamente Portugal está no rumo certo, subjectivamente Manuel Pinho é ministro

l) Objectivamente mamilo é uma palavra horrível, subjectivamente rima mal com Esquilo, ou bem com Camilo ( mas, nem objectiva, nem subjectivamente, rima com Castelo Branco)

m) Objectivamente ninguém nos conhece, subjectivamente até parecemos transparentes

n) Objectivamente o suprematismo russo é uma corrente artística, subjectivamente ninguém sabe ao certo o que é

o) Objectivamente Kavafavafafodavavissenãometáassaiarvis é um poeta grego, subjectivamente é um gajo que só o lê quem não tem pilinha em condições para brincar

p) Objectivamente Engenharia é a técnica dum gajo que faz umas contas abstractas aplicadas a uma realidade concreta, subjectivamente é um curriculum concreto obtido duma forma abstracta

q) Objectivamente a alma humana não se vê, subjectivamente só não a vê quem não quer

r) Objectivamente a adolescência é uma fase, subjectivamente é um mercado alvo e o que faz um pai calvo

s) Objectivamente o crepúsculo é o momento da passagem da tarde para a noite, subjectivamente é a passagem da noite para o dia

t) Objectivamente o ‘enriquecimento sem motivo aparente’ é um indício criminal, subjectivamente é bom

u) Objectivamente o cristianismo é um enquadramento cultural, subjectivamente é um negócio paralelo de almas

v) Objectivamente quase ninguém conhece a Karen Dalton, subjectivamente nunca mais ninguém cantou assim

w) Objectivamente o Morandi só pintou copos e garrafas, subjectivamente melhor que ele a pintar a alma só o Ingres com os banhos turcos

x) Objectivamente a ‘ciência’ tende a confundir equilíbrio com ausência de dispêndio de energia, subjectivamente não há equilíbrio sem fazer um esforço do caraças

y) Objectivamente o teatro é uma arte, subjectivamente é aquela coisa que até põe o André Gago a fazer de Hamlet

z) Objectivamente este post está entre a parvoíce e a treta, subjectivamente deu para aliviar a tensão acumulada entre a falanginha e a falangeta.


o «tímido» e lacrimejante bloglirismo íntimo (& counting…)

23 Março 2007

Romance, aka Romanza – versão de Miriam Makeba


D. Flourenço e seus dois maridos

20 Março 2007

D. Flourenço tinha duas paixões: a estatuária pré Praxiteliana e o espólio perdido de Calímaco. De dia sonhava com Diadumenos de corpos epsilonizados e de noite sonanbulava com inversões poéticas inspiradas em Conópions com pêlos. Todos os dias era um castigo para se levantar porque lhe pesava a erudição naquela zona da nuca onde o indecente bafo se aloja, e por vezes impudicamente se cola que nem espuma de poliuretano mal expandido. Declarou-se um dia escritor. Iria fundir a poesia com a anatomia, o sentimento com o fermento, traria a castidade para fora do convento e faria dum obsceno gemido a ternura dum lamento. E foi assim que, da épica para a lírica e da coxa para o lombo, se deixou envolver por dois amantes ciumentos: um que parecia um verso alexandrino da cintura para cima e outro que se assemelhava a um vilancete da cintura para baixo. Vivia que nem uma autêntica redondilha.

De manhã, a um recitava adaptações de Rufino, e, à tarde, a correr, ia provando palmilhas de cortiça ao outro que se mascarava de Aquiles. A situação ia ficando insustentável, até porque a certa altura já misturava os quiasmos com os anacolutos e esteve quase a apanhar uma epanadiplose na anáfora. Já não conseguia descortinar o que era físico e o que era espiritual, o que era bavaroise e o que era bacanal, e ora se mostrava elíptico ora pleonástico, mas sentia-se incapaz de parar. Chegou a pensar em escrever contos para crianças, mas temeu viciar-se nas alegorias, chegou a ficar dependente das sinestesias, passou uma temporada a recitar ditirambos de Baquilíades para se libertar, mas, no fundo, tinha duas casas para alimentar e precisava daquilo com que se compram as hipérboles. Voltou por fim à sua vocação inicial, recolhida no berço maternal: traduzir frases de Platão para Agatão, sem dar ouvidos às falas enigmáticas de Diotima, e sem se preocupar quem está por baixo e quem está por cima.


Minha estimada senhora, cada um tem o treinador que tlebsse.

17 Março 2007

Não sei se estava a referir-se premonitoriamente aos três pontinhos que os lagartos sacaram à tripeirada naquele estádio que tem mais correntes de ar que a plateia do teatro da trindade. Ao assim ser, faço-lhe notar que, quando um treinador chamado Jesualdo, que às primeiras até aparenta ser uma corruptela aligeirada do nome do Redentor, é confrontado com um outro, que já de se si é Bento, cria-se uma situação de inferioridade teológica de alguma monta; analisemos: enquanto a ‘benção’ é um acto que pretende valorizar um bem terreno, dotando-o de propriedades que garantam ao seu usufrutuário uma maior comparticipação das benesses transportadas graciosamente pelo próprio crucificado (penso que o Cardeal Patriarca ainda vai aproveitar esta frase, nem que seja na pastoral das costureiras), a redenção é um acto divino que, ao ser indevidamente apropriado por indivíduos sem preparação ou envergadura, pode acarretar efeitos secundários, inclusivamente mais perniciosos que os falsos profetas, ou as micoses disfarçadas de lepra bíblica. Ou seja, o particípio passado do verbo ‘Jesualdar’, (acto de um tipo de redentor que à última hora se vai baldar e vai para os copos com o bom ladrão) ao ser confrontado com a forma substantivada do verbo ‘benzer’, mesmo no seu estado passivo (pessoa que incorpora humildemente o lastro secular da tentacular carícia divina – esta frase também julgo que não esteve mal) tem bastantes probabilidades de engasgar e ficar a debitar uma miscelânea de preposições pastosas com adjectivos furunculados. Penso que, hoje, até Rui Santos poderá dizer coisas acertadas, pois, quando a lagartada ganha, até parece que duplicam os dons do Espírito Santo; no fundo, as coisas começam, todas elas, a fazer mais sentido.


Proibexibicionismo

16 Março 2007

Está provado que o efeito cruzado entre o tgv e a abolição dos isqueiros bic permitirá a alargar o raio de eficiência duma urgência hospitalar em 73,5 km. E se a esta combinação for associada uma subida de 15% no uso dos genéricos, um cartão único com foto tipo passe, a restrição ao uso de adjectivos na forma superlativa, e a redução das correntes de ar no palco do S. Carlos, então praticamente só com uma urgência em Abrantes, uma coincineradora em Figueiró do Vinhos, e seven up à borla para todos, a reforma do país fica feita.


YouTubas bem mas não m’alegras

7 Março 2007

Desde que esta coisa dos blogs se tornou uma filial do youtube nunca mais se conseguiu dar um passeiozito pela blogaria descansado e descontraído. Ele há um pouco de tudo, mas, basicamente, ninguém quer perder a hipótese de descobrir um achado youtúbico, uma novidade cacaregante. Tenho algumas saudades dos tempos em que as verdadeiras discussões que interessavam eram sobre quem punha e não punha fotografias, quem tinha ou não comentários, quem tinha ou não aldrabado a leitura do Proust, quem usava e abusava ou não dos itálicos, quem citava ou não o Pavese, e depois, até quem impingia ou não uma musiquita. Qualquer dia, em vez de se gozar com o pacheco pereira, ou com a florbela espanca, até haverá gente a pôr vídeos com saraus de ginástica ou entrevistas com o Armando Vara. Falhos de conteúdo, cansados da forma, e obliterados de imaginação, deixámo-nos levar pela ilusão do movimento.