Luna park

 

«Dostoievski interessou-me na adolescência. Os adolescentes adoram Dostoievski, por causa do fogo-de-artifício e das discussões, mas não penso que os livros sejam muito bem construídos.» de Robert Dessaix, em entrevista ao suplemento ‘Ypsilon’, ‘Público’, 23 de Março

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la chica y el mono, err… a menina e o avozinho: «Qualquer rapariga pode ser glamurosa. Tudo o que tem a fazer é ficar quieta e parecer estúpida.» – Hedy Lamarr

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Pode um desejo imenso / Arder no peito tanto, / […] / Que faz que leia mais do que vê escrito. – Camões, L. V., Ode VI

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«Eu aguentei com a graça de Deus, eu resisti com a graça de Deus», Pedro Santana Lopes, SIC Notícias, 18 de Março, Lua Nova

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«Quem não precisa de se não precisou de mais nada» de João Bénard da Costa, in ‘Os filmes da minha vida, na crónica sobre ‘Casablanca’

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«Apenas ao cair do crepúsculo a coruja de Minerva estende as suas asas.» – Hegel, 1821: Fundamentos da Filosofia do Direito

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«Não se pode sonhar com um homem qualquer. Um marido é fácil, relativamente fácil, apesar de difícil. Mas um homem para sonhar, um homem para sonhar e que veja em mim somente uma mulher para sonhar e que não exija mais de mim…» in «Bolor», Augusto Abelaira, Ed. Bertrand, 1968 (pp 188)

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«Natureza – Imaginavas, talvez, que o mundo tivesse sido feito por vossa causa? Pois fica sabendo que as minhas obras, planos e acções, com poucas excepções, sempre pus e ponho as minhas intenções em tudo menos na felicidade ou na infelicidade dos homens. Quando de qualquer maneira vos molesto, e seja qual for o meio que uso, não me apercebo de que faço, a não ser raríssimas vezes; do mesmo modo que, normalmente, se vos causo prazer ou benefício, não sei que o fiz; e, ao contrário do que pensais, não fiz as coisas que descreveste e não pratico as acções que referiste, para vos ser agradável ou útil. E, para terminar: mesmo que se desse o caso de eu extinguir toda a vossa espécie, não daria por isso.»

de Giacomo Leopardi in ’Pequenas Obras Morais’ – ‘Diálogo da Natureza e dum Islandês’ (ed Relógio D’Água)

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«Só agora G. compreendia o que é o contacto íntegro com a mulher: uma coisa exigente, insaciável, insondável, que participa das forças cegas e desencadeadas da Criação, e que há milénios leva os homens a viver no terror supersticioso da fêmea, e porventura a procurar subjugá-la pela força e pelas regras da moral.»

in ‘O Milagre segundo Salomé’ de José Rodrigues Miguéis (ed Estampa, vol II)

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O que eu procuro na transfiguração cómica ou irónica ou grotesca ou burlesca é a saída da tacanhez e da univocidade de toda a representação e de todas as opiniões.

Italo Calvino, Ponto Final

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«Porque tal como o sol é novo e antigo,/ Assim de meu amor o dito digo.»

Shakespeare, Sonetos, trad VGM, nº76

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[…] sei que o amor é começado pelo tempo / E porque vejo, em factos experimentados, / Que o tempo extingue o seu brilho e o seu fogo. / Dentro da própria chama do amor vive / Uma espécie de torcida ou morrão que há-de apagar o amor. / E nenhuma coisa mantém seu primeiro esplendor, / Pois o esplendor crescendo até sua plenitude / Morre do próprio excesso, o que queremos fazer / Temos de o fazer enquanto queremos; pois o «querer» muda, / E tem abatimentos e demoras tão numerosas / Como o são as línguas, as mãos, os acidentes. / Então o «querer» é como o suspiro de um pródigo, / Que magoa aliviando.

Shakespeare, Hamlet, IV.7

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«Sentir tudo excessivamente,

Porque todas as coisas são em verdade excessivas»

(…)

«De que serve ter uma sensação se há uma razão exterior para ela?»

Fernando Pessoa, Álvaro de Campos

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«Cada insensível rotação do mundo tem destes deserdados / a quem não pertence nem o que foi, nem o que há-de seguir-se./ Pois o que há-se seguir-se é longínquo para os homens. A nós isto/ não nos deve perturbar; antes nos dê a força de guardar a forma ainda reconhecível» de Rainer Maria Rilke, na Sétima Elegia (Assírio & Alvim)

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«Há muito tempo que o rock não tinha tanta paixão»

de Vítor Balenciano, Suplemento ‘Y’ do Público, 9 de Fevereiro, a propósito do concerto dos ‘Arcade Fire’, na apresentação do seu novo álbum ‘ Neon Bible’

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«O que faz a grandeza adulta de uma história de amor é a capacidade de não deixar desfazer em fumo de tolo orgulho arranhado a palavra ‘tudo’; o que mostra a pequenez adolescente de uma paixoneta é poder reduzir-se à efemeridade esfumada da palavra ‘nada’.»

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«As grandes histórias de amor (…) desfazem-se em fumo a seguir a uma palavra, a uma entoação, a registos ou tonalidades que são verdadeiras humilhações de alma, quando teriam suportado qualquer outro acto inoportuno» de George Steiner, a propósito da ‘Antigona’ de Sófocles, em entrevista a Ramin Jahanbegloo (ed Fenda)

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«Não há mulher que durma serena sempre ao peito de homem algum» de Fátima Rolo Duarte, in f-world-blog.blogspot.com

 

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«A saudade é um bicho. Pode fazer-se dele um animal de companhia ou uma fera imprevisível e de difícil doma. Em qualquer dos casos a trela deve andar sempre curta e firme porque sem saudade os bichos somos nós. E, se nos arranhar, há que lamber rápido para apanhar ainda o sabor da ferida fresca» in ‘Azul Cobalto’

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Contigo aprendí / que existen nuevas y mejores emociones / contigo aprendí / a conocer un mundo nuevo de ilusiones. // Aprendí que la semana tiene más de siete días / a hacer mayores mis contadas alegrías / y a ser dichoso yo contigo lo aprendí. // Contigo aprendí / a ver la luz del otro lado de la luna / contigo aprendí / que tu presencia no la cambio por ninguna. // Aprendí que puede un beso ser más dulce y más profundo / que puedo irme mañana mismo de este mundo / las cosas buenas yo contigo las viví. // Y también aprendí / que yo nací el día en que te conocí.

Armando Manzanero – «Contigo aprendi»

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Corpo de linho / lábios de mosto / meu corpo lindo / meu fogo posto.(…) milho vermelho / cravo de carne / bago de amor (…) volta a nascer / quando há calor (…) Olhos de amêndoa / cisterna escura (…) / Oh minha terra / minha aventura
(…)

Moira escondida / moira encantada / lenda perdida / lenda encontrada.

De Ary dos Santos, in ‘Desfolhada’

 

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«Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo – / Transeunte inútil de ti e de mim, / Estrangeiro aqui como em toda a parte / Casual na vida como na alma, / Fantasma a errar em salas de recordações / Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem / No castelo maldito de ter que viver…» – Álvaro de Campos, Lisbon Revisited, 1926

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«Para amar bem é preciso saber pensar ainda melhor.»

A partir de Racine, em 14 Janeiro 2007

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Um homem não se renova a si próprio através do amor renunciando às mulheres; torna-se simplesmente um masturbador. E acredito que há sempre mais a aprender de um olhar virgem acabado de regressar de uma volta pelas coisas que nos são familiares do que de um olhar comum que tenha sido privilegiado com o vaguear por territórios virgens.

Odysseus Elytis, «Open book» (excerto adaptado). Tradução do grego por Theophanis Stavrou (Books abroad, vol. 49, no 4, 1975)

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“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?”, in «Pecado original», Poemas de Álvaro de Campos (p. 175), INCM

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Porque sou Cavaleiro Andante / que mora no teu livro de aventuras / podes vir chorar no meu peito / as mágoas e as desventuras / (…) / Sempre que a rádio diga / que a América roubou a Lua / ou que um louco te persiga / e te chame nomes na rua / (…) / Podes vir chorar no meu peito / longe de tudo o que é mau / que eu vou estar sempre ao teu lado / no meu cavalo de pau. De Rui Veloso e Carlos Tê, em «Cavaleiro andante»

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«A ‘verdade’ do batoteiro, se é que isso existe, é muito bíblica: alguns fins justificam alguns meios.» – nem Don Juan nem Ortega&Gasset

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“Conhecer as coisas não é sê-las [à minha responsabilidade acrescento «ou tê-las»]; nem sê-las [vg. «tê-las»], conhecê-las. Para ver uma coisa é necessário que nos afastemos dela, e a distância converte-a de realidade vivida em objecto de conhecimento.”

Ortega&Gasset, in “Para uma psicologia do homem interessante” (Estudos sobre o amor, pg. 145)

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«Os católicos (argentinos) crêem num mundo ultraterreno, mas notei que não se interessam por ele. Comigo acontece o contrário: interessa-me e não acredito» JL Borges em ‘Borges verbal’ , retirado duma reportagem de Menotti em Buenos Aires,1979

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Os homens não são todos iguais.

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«Sempre», dizes, como se o tempo / fosse para além do que somos, / e o que somos não se perdesse / em cada canto em que nos perdemos.

Nuno Júdice, “Melancolia”, em A a Z, 13 de Dezembro de 2006

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“Os anos são degraus, a Vida a escada. / Longa ou curta, só Deus pode medi-la.” – Sophia de Mello Breyner Andresen

 

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lais de guia

“Os abismos das coisas, quem os nega, / se em nós abertos inda em nós persistem? / Quantas vezes os versos que te dou / na água dos teus olhos é que existem!” – Carlos de Oliveira, in “Carta a Ângela”

“[…] E se ao luar que atua desvairado / Vem se unir uma música qualquer / Ai então é preciso ter cuidado / Porque deve andar perto uma mulher […]” – Vinicius de Moraes, excerto do soneto de abertura de “Orfeu da Conceição” (1956)

“[Ah, minha amada / De olhos ateus] / Cria a esperança / Nos olhos meus / De verem um dia / O olhar mendigo da poesia / Nos olhos teus” -Vinicius de Moraes, in “Poema dos olhos da amada”

“Deixa-te estar assim, / ó cheia de doçura, / sentada, olhando as rosas, / e tão alheia / que nem dás por mim” – Eugénio de Andrade, in “Pequena elegia de Setembro”

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«(…) sinceramente, vigorosamente, ardentemente, fraternalmente, maternalmente, amigavelmente e apaixonadamente», de Milan Kundera, in ‘O livro do riso e do esquecimento’, D. Quixote, 1986

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«O amor não produz tanto efeito como a sua aparência» de Robert Walser, in ‘A Rosa’, Relógio d’Água, 2004

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Há uma voz de sempre,/ Que chama por mim./ Para que eu/ lembre,/ Que a noite tem fim./ Ainda procuro,/ Por quem não esqueci./ Em nome de um sonho,/ Em / nome de ti./ Procuro à noite,/ Um sinal de ti./ Espero à noite,/ Por quem não esqueci./ Eu/ peço à noite,/ Um sinal de ti./ Quem eu não esqueci…/ Por sinais perdidos,/ Espero em vão./ Por/ tempos antigos,/ Por uma canção./ Ainda procuro,/ Por quem não esqueci./ Por quem já não volta,/ Por quem eu perdi.

Sétima Legião , “Por Quem Não Esqueci”

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“Chegamos sempre tarde demais aos homens e cedo demais aos deuses”.

Martin Heidegger, citado por Hannah Arendt

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“Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções – ridiculamente humanas às vezes – que ele quereria insisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.”

Fernando Pessoa, “Notas Autobiográficas e de Autognose”

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«Os homens, já reparei, podem ser efectivamente indiferentes ao que os rodeia (…). As mulheres não são assim.»

Martin Amis, in ‘Experiência’, Teorema (2002)

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«Nada é mais erótico do que aquilo que te é feito guiado pelo puro egoísmo do teu amante. A caridade, por outro lado, é o maior anafrodisíaco.»

‘The Book of Shadows’ de Don Paterson, ed Picador, 2005

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“Um homem conhece-se pelo seu ponto de embraiagem.”

JB, “Aula de Código (V)”, in Bandeira ao vento, 30 Novembro de 2006

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“o amor é um pouco como a fé. ou se tem ou não se tem. não o amor e a fé, mas a capacidade ou a possibilidade de lhes aceder, de ser por eles ‘transfigurados'”

f., in “um amor de bond”, Glória fácil em 27 de Novembro de 2006

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«António.

Que raio de nome, António. Eu devia era chamar-me Wladimir!»

Antº Lobo Antunes em ‘Cartas de Guerra- d’este viver aqui neste papel descripto’, 3 julho de 71 (aludindo a uma das personagens de Beckett em ‘à Espera de Godot’)

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“Charles Darwin tinha razão quanto ao poder de escolha da fêmea: ela tem capacidade para moldar os machos e para criar novas espécies.”

Therese Ann Markow, bióloga, Universidade de Arizona, Julho 2003

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“Os adornos do macho não são necessariamente uma componente física, mas sim bens adquiridos.”

Gerald Borgia, biólogo, Universidade de Maryland, Julho 2003

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«Eu sei que há qualquer coisa de vez em quando que acontece.»

Amália Rodriges, 1971,

(citada na ‘Blitz’ de Novembro, a propósito da sua visita ao ‘Cascais Jazz’ nesse ano, quando lá foi Miles Davis)

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“Com um amante, a vida quotidiana passa para segundo plano.”

Philip Roth, in “Traições” (1990)

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“A profissão de entusiasta é a mais nauseante das insinceridades.”

Cesare Pavese, in “O Ofício de Viver”, 9 de Fevereiro de 1940

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«O amor é um facto pouco frequente e um sentimento que só certas almas podem chegar a sentir; em rigor, um talento específico que alguns seres possuem, e que se dá geralmente unido a outros talentos, mas que pode ocorrer independentemente deles.»

Ortega y Gasset em ‘Para uma psicologia do homem interessante’ (Revista de Occidente, 1925, e em ‘Estudos sobre o amor’, pg 153)

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“É bom reparar quão diferente é a carga afectiva das palavras bem-estar, alegria e prazer. O bem-estar é aceitável, a alegria é nobre, o prazer é suspeito.”

Henri Laborit, in “La Nouvelle Grille” (p. 80)

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“Viver é fácil e, às vezes, quase alegre.”

Gabriel Celaya, “Amor”

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“Que estranha fragmentação entre a emoção e a realidade será esta que nos faz reconhecer a morte anunciada no próprio fôlego da mais inflamada jura de amor, que nos cega perante as evidências…?

Já sei porque é que os anjos não têm sexo!”

Da Infalibilidade do Previsível, in “Um crânio no poste”, 4 de Outubro de 2006

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“Os únicos alheios ao sexo são os anjos e de momento não conhecemos nenhum.”

Blog “Sexo”, El Mundo, 3 de Novembro de 2006

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“Existem dois tipos de pessoas: aquelas que dizem a Deus: ‘ Muito bem, assim será feito’, e aquelas a quem Deus diz: ‘ Está bem, então faz isso à tua maneira’.”

C.S. Lewis, ‘The Screwtape letters’, 1943

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“Os detalhes da sua incompetência não me interessam.”

Miranda Priestly, in “O Diabo veste Prada”, 2006

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A barraca dos tirinhos (com dedicatória)

“Eu acho que, se alguém abre as portas da sua casa às revistas cor-de-rosa ou à «imprensa de referência», mostra a filharada e as molduras douradas, a cama e a mesa, o pijama e a correspondência particular — está no seu direito, e há até uns vagos seres que vivem disso com aplauso do povo e lantejoulas na televisão. Mas se alguém decide reservar para a sua vida privada aquilo que é a sua vida estritamente privada, se alguém não está disposto a mostrar em público aquilo que é apenas seu, qualquer violação dessa intimidade é um crime — quer isso aconteça nas páginas de um jornal, no colorido de uma revista ou até na reserva impiedosa de um blog. […] O povoléu não quer apenas sangue e escândalo; quer também escândalo onde não há, para que possa alimentar a sua inveja e a sua própria natureza. A privacidade é o maior dos bens no universo público.”

Francisco José Viegas, in “A Origem das Espécies“, 31 de Outubro de 2006

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